quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Mia Couto uma relação : arte e aranhas, arteterapia...


Mia Couto fala sobre arte e aranhas,  e eu falo sobre arteterapia,  e o tecer.
Conheci este texto ” A infinita fiandeira ” de Mia Couto quando no ano de 2012 ganhei no Natal o livro  “O fio das Missangas” , me encantei, li reli e logo fiz a relação dele com o processo arteterapeutico de tecer a vida ,  e escrevi este texto , mas não o editei ... Hoje conhecendo mais contos  e frases de Mia Couto , o reli , complementei ...e lhes apresento  
Nele o autor faz uma linda relação entre a aranha e suas teias,  e a arte. Gosto muito desta relação, pois penso que somos assim criamos teias a vida toda , nas nossas relações familiares,  e no nosso trabalho.
Aqui temos o conto:  A INFINITA FIANDEIRA
“A aranha, aquela  aranha, era tão única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo, um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs.
E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem nem finalidade. Todo bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatias funções: lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem, menos a nossa aranhinha, em suas distraiçoeiras funções.
Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a indevida aplicação? Mas a jovem aranhiça não fazia ouvidos. E alfaiatava, alfinetava, cegava os nós. Tecia e retecia o fio, entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.
- Não faço teias por instinto.
- Então, faz porquê?
- Faço por arte.
Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e recantos deixava a sua marca, o engenho da sua seda. os pais, após concertação, a mandaram chamar. A mãe:
- Minha filha, quando é que acentas as patas na parede?
E o pai:
- Já eu me vejo em palpos de mim...
Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos muitos olhos enquanto disse:
- Estamos recebendo queixas do aranhal.
- O que é que dizem mãe?
- Dizem que isso só pode ser doença apanhada de outras criaturas.
Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um machito. E organizaram um amoroso encontro.
- Vai ver que custa menos que engolir mosca - disse a mãe.
E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o singelo namorador, a aranha namorou e ficou enamorada. Os dois deram-se os apêndices e dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a teia que fabricava a brisa?
A aranhiça levou o namorado a visitar sua coleção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova de seu amor.
A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime. Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era o que fazia?
- Faço arte.
- Arte?
E os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais-velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos - chamados de obras de arte - tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.”
Creio que este conto diz muito do fazer arteterapeutico, tecemos através da arte as novas possibilidades para resolver as nossas tristezas, nossas aflições,  inseguranças , ate tecemos novos olhares para as situações do dia a dia.  
As aranhas fazem suas teias com a função de atrair o macho para as núpcias,  como uma armadilha de caçador  , mas esta aranha não tecia suas teias com esse objetivo dizia “ Não faço teias por instinto , faço por arte , é o que diz a aranha ....
A arte, a arteterapia,  e a aranha tem muito em comum... Tecemos a nossa vida com os fios que nos são dados, e vamos desta forma,  criando relações, unindo,  e ou  afastando pessoas , criando configurações diferentes a cada etapa de nossa vida.  
 

O tecer é muito valioso para o trabalho arteterapeutico, no trabalho com mulheres creio que esta atividade tem efeito muito benéfico, pois tecer é criar com suas mãos algo novo, dar forma, reconfigurar as diferentes situações. Pode ser muito importante para a reestruturação do feminino, das suas qualidades, do seu valor .
Isso porque a aranha, é mulher que tece sua vida, muitas vezes a faz somente por que acredita ser desta forma , sendo assim,  o olhar sobre esta aranha nos dá  novas possibilidades de ver a vida .
A nova postura frente à vida nos é aqui mostrada pela aranha, que ao invés de devorar seu namorado, a aranha dele se enamorou,  e lhe deu uma teia para que vivesse la, penso que este também é um grande ensinamento mudar o que já parece estar traçado , o que sempre foi assim ... Será que tudo sempre deve ser igual ? Podemos transformar e refazer as situações, e viver um novo!
Creio que o novo assusta, vai contra o que já se esta acostumado, transformar é sempre muito difícil, mas o resultado quase sempre é satisfatório. Já usei este texto em oficina de mulheres e foi muito interessante , pois somos tecelãs de nossa vidas assim como a aranha o é de sua teia
Texto baseado no Texto de Mia Couto: A INFINITA FIANDEIRA do livro “O fio das Missangas”  
 
 

 

3 comentários:

  1. Oi, Nancy,
    Faço parte do Projeto; " A gente quer comida, diversão e arte ", coordenado pela professora, Márcia Lobosco. E, hoje, em nosso " Café Literário " mensal, trabalhamos este texto de Mia Couto. Maravilhoso!!! Parabéns pela reflexão que fez sobre ele...gostei muito!!! Abraço grande, com carinho...

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    1. Ola GIna bom dia , fico muito feliz quando as minhas postagens podem auxiliar ou ampliar o trabalho de meus seguidores ...Seu projeto me parece muito interessante, gostaria de saber mais um pouco sobre ele .
      Grata pela visita e comentário
      Abraços carinhosos
      Nancy

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